Conto auto-biográfico de Marcos Morais
Belo Horizonte, 25 de julho de 2009
No início dos anos 1970, em Belo Horizonte, eu fazia parte de um grupo de amigos muito ativos e um tanto anarquistas que vivia nas ruas do bairro Renascença. Naquele tempo, a região já era bem habitada, mas as ruas eram de terra e havia suaves colinas no entorno, para onde a gente fugia de bicicleta em busca de aventuras.
O mais velho da nossa turma era o Antônio Sérgio, que a gente chamava de Toimsérgio ou Tonho. Por ser mais alto e mais forte, ele liderava o bando, fazendo a iniciação dos novatos com rituais bizarros. Ele foi especialmente duro com Elias, um adolescente grandalhão, muito tímido e atrapalhado, que mudara há pouco tempo pro bairro. O novato queria entrar na turma, mas Tonho sempre o desprezava. Um dia, a caminho do campo de futebol, Elias insistiu tanto que conseguiu ser aceito, mas com uma condição: tinha de beber um copo de cachaça num só gole. A turma lotou um pequeno bar para assistir o desafio. Sem hesitar, ele pegou o copo e bebeu como se fosse água. Depois começou a gritar "Isso queima" e ficou alguns minutos engasgando sem que ninguém o socorresse. Pensei que ele ia morrer e saí rápido do bar. Em poucos minutos, todos apareceram rindo e Elias surgiu logo atrás, com um semblante vitorioso. Este incidente mudou o seu comportamento no grupo e ele se tornou agressivo.
O mais velho da nossa turma era o Antônio Sérgio, que a gente chamava de Toimsérgio ou Tonho. Por ser mais alto e mais forte, ele liderava o bando, fazendo a iniciação dos novatos com rituais bizarros. Ele foi especialmente duro com Elias, um adolescente grandalhão, muito tímido e atrapalhado, que mudara há pouco tempo pro bairro. O novato queria entrar na turma, mas Tonho sempre o desprezava. Um dia, a caminho do campo de futebol, Elias insistiu tanto que conseguiu ser aceito, mas com uma condição: tinha de beber um copo de cachaça num só gole. A turma lotou um pequeno bar para assistir o desafio. Sem hesitar, ele pegou o copo e bebeu como se fosse água. Depois começou a gritar "Isso queima" e ficou alguns minutos engasgando sem que ninguém o socorresse. Pensei que ele ia morrer e saí rápido do bar. Em poucos minutos, todos apareceram rindo e Elias surgiu logo atrás, com um semblante vitorioso. Este incidente mudou o seu comportamento no grupo e ele se tornou agressivo.
Poucos dias depois, estávamos sentados conversando, quando Elias chegou de bicicleta fazendo graça. Ele tentou dar um cavalo-de-pau para impressionar o grupo, mas derrapou e caiu de rosto na terra, se arranhando todo. Houve uma gozação tão grande ele voltou para casa empurrando a bicicleta e chorando. Nos dias seguintes, ele se transformou completamente. Surgiu um sorriso malicioso nos seus lábios e ele provocava os mais fracos para arranjar briga. Como eu era baixo e fraquinho, ele me escolheu como bode expiatório. Passou a me perseguir, com uma combinação de ameaças e chacotas, e dizia, entre risadas irônicas, que ia me dar um soco. Fiquei ofendido por ter me tornado o alvo da sua vingança e me enchi de ira contra ele também.
Um dia, ao se aproximar de mim, ele renovou a ameaça de me bater, mas antes que pudesse agir, eu lhe dei um forte golpe no rosto, que o jogou no chão. Saí correndo e nem vi ele se levantar. "Vou te matar seu filho da puta", ele gritou, indignado e surpreso com o murro que levou. Então, pegou uma grande pedra no chão e saiu correndo atrás de mim. Imediatamente comecei a fugir mas, no desespero, fui na direção errada e me afastei da minha casa. Então percebi que não poderia escapar e parei. Como um animal acuado, eu me virei para ele e disse com audácia: "Joga a pedra fora e vem no braço". De bom grado, Elias se desfez da arma e partiu para cima de mim, mas de repente levou um empurrão e caiu de novo. O golpe, desta vez, veio de um baiano forte que tinha uma quitanda ali perto e viu a perseguição. Ele era amigo da minha família e veio me proteger. Duplamente humilhado, Elias foi embora para casa jurando que ia me matar e eu, envergonhado por ter fugido dele, não comentei o fato com ninguém lá em casa.
Um dia, ao se aproximar de mim, ele renovou a ameaça de me bater, mas antes que pudesse agir, eu lhe dei um forte golpe no rosto, que o jogou no chão. Saí correndo e nem vi ele se levantar. "Vou te matar seu filho da puta", ele gritou, indignado e surpreso com o murro que levou. Então, pegou uma grande pedra no chão e saiu correndo atrás de mim. Imediatamente comecei a fugir mas, no desespero, fui na direção errada e me afastei da minha casa. Então percebi que não poderia escapar e parei. Como um animal acuado, eu me virei para ele e disse com audácia: "Joga a pedra fora e vem no braço". De bom grado, Elias se desfez da arma e partiu para cima de mim, mas de repente levou um empurrão e caiu de novo. O golpe, desta vez, veio de um baiano forte que tinha uma quitanda ali perto e viu a perseguição. Ele era amigo da minha família e veio me proteger. Duplamente humilhado, Elias foi embora para casa jurando que ia me matar e eu, envergonhado por ter fugido dele, não comentei o fato com ninguém lá em casa.
A partir deste dia, eu não saía mais. Era a época de férias e eu não tinha motivos para deixar meu refúgio. Para preencher meus dias, montei um laboratório de ciências nos fundos do lote, onde passava horas a fio fazendo experiências intuitivas e reescrevendo um livro de geometria, sem que ninguém desconfiasse que eu estava jurado de morte. A estratégia funcionou bem, pois eu era o sexto filho de um casal de classe média baixa, que vivia uma irritante rotina familiar e, por isso, eu passava quase despercebido. Mas quando minha mãe me pedia pra comprar alguma coisa, o pavor ressurgia. Eu saia à rua como se fosse pra guerra. Chegava devagar no portão, olhava para os lados, esperava, calculava e só então, timidamente, colocava meu pé para fora e entrava no campo de batalha. Por mais perto que fosse, o trajeto era longo e penoso. A cada esquina eu olhava para para todos os lados procurando Elias. O retorno era sempre na corrida e, de volta ao laboratório, eu comemorava mais uma vitória. Mas eu me achava um covarde e, por isso, isolei-me dos amigos pois me sentia traído por eles e desprotegido no bando.
Seis meses se passaram e eu aprendi a ir incógnito à escola e ser um aluno invisível aos olhos de todos. Minha família resolveu se mudar e eu fiquei muito aliviado com isso. Um dia, eu saí para fazer compras e andava distraído. Ao dobrar a primeira esquina, não percebi que Elias vinha descendo a rua. No meio do quarteirão, eu ergui a cabeça e vi meu inimigo de frente, há uns dez metros de distância. "E se agora eu quiser te dar uma porrada?", ele gritou com uma voz rouca assim que eu parei. A rua estava completamente vazia, como se preparasse o cenário perfeito para o meu último ato. Não havia ninguém para intervir por mim, mas eu já estava cansado de fugir e então aceitei meu destino. "Pode fazer o que quiser, eu não tenho medo", eu disse, enquanto passava por ele roçando o seu ombro e seguindo meu caminho. Elias me olhou com um sorriso de deboche, parecendo um pouco surpreso pela minha atitude e, por alguma razão, resolveu não fazer nada, indo embora também.
Alguns dias depois, eu me mudei de bairro e nunca mais o vi. Não tenho certeza se nossa dívida está quitada, mas me ficou um sentimento bom, talvez de gratidão ou admiração. Porque escolhi pensar que Elias se libertou da vingança quando finalmente a teve nas mãos.
-.-